terça-feira, 9 de março de 2010
AQUI CABE A PERGUNTA: O QUE FAZER?
PELO DIREITO DE JOGAR A CABEÇA CONTRA O VIDRO
Por Walter Hupsel
Recentemente, e por conta de uma entrevista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, voltou à pauta a questão das drogas, especialmente a legalização da maconha. O ex-presidente defendeu a legalização da maconha com um argumento muito simples e verdadeiro: a guerra às drogas não trouxe o efeito esperado, não diminuiu o consumo e jogou milhões, quiçá bilhões, de dólares fora. Para FHC, se trata de legalizar o consumo e focar os recursos na repressão ao narcotráfico enquanto olha para o usuário como um problema de saúde pública.
Como um pouco de história não faz mal a ninguém, é fato inegável que a humanidade sempre consumiu substâncias psicoativas desde os tempos mais remotos, seja para finalidade lúdica ou ritualística. De uma maneira ou de outra, as drogas sempre fizeram parte do nosso cotidiano, da nossa vida.
Até bem pouco tempo atrás (falo na escala da espécie humana), até o começo do século 20, existiam casas de consumo de drogas, especialmente de ópio, pela Europa. Frequentá-las era como ir a um bar tomar um chopp no fim do expediente. Mas as drogas, pouco a pouco, foram postas na ilegalidade e seus consumidores, enquadrados no código penal, um legado dos “moral majority” estadunidenses.
Maconha era droga de “mexicano vagabundo”; a “malvada” cocaína destruía o superego e transformava o médico num monstro; o álcool atacava as fundações da célula-mater da sociedade, a família. Nunca é demais lembrar que o ápice dessa cruzada foi com a “lei seca” nos Estados Unidos. De repente, tomar um dose de whiskey era crime!
Claro que o consumo dessas substâncias continuou, e continua, a despeito da cruzada. O que mudou foi a forma: se antes um inglês ia a um local público fumar ópio, a substância tem agora de ser obtida no mercado negro, nas sombras, e apenas na escuridão é possível consumir. Esta mudança, claro, trouxe consigo novas figuras, aqueles que conseguiam abastecer o consumidor, ávido por gatilhos que disparassem suas sinapses.
Estava criada a figura do traficante e do tráfico internacional de drogas. De um lado o consumidor; de outro, o traficante. Entre eles, o Estado e sua polícia. A equação estava fadada ao fracasso, mas isso é tema para uma próxima coluna.
Por que descriminalizar? E por que a maconha?
O senso comum, a obviedade: porque a maconha não faz mais mal que o cigarro ou o álcool e como estas últimas são drogas lícitas, não há motivos pra não descriminalizá-la. O problema é que o mesmo argumento pode ser usado para proibir, banir, a cerveja e o tabaco (este caminha rapidamente para a prescrição). Se o cigarro faz tão mal ou mais que a maconha, por que não proibi-lo também?
Descriminalizar significa deixar de ser crime; incluir no ordenamento jurídico alguma ação, para então permiti-la. No momento que agimos assim, tacitamente aceitamos o fato de que qualquer assunto pode ser passível de regulamentação, de legislação, para a aceitação ou para a proibição.
Ora, o que perdemos no século 20 foi justamente a linha que separava aquilo que era passível ser legislado (permitido/proibido) do que simplesmente não cabia nesta lógica. Não achamos justo que nos digam como (ou com quem) devemos dormir, assim como não posso achar justo que me digam se posso ou não jogar minha cabeça contra um vidro.
Liberar, ao contrário, é assumir que existem espaços, esferas, que nenhum juiz ou deputado pode julgar por meio da lei, que só e somente só ao autor cabe a decisão de fazer ou não.
Em síntese: é defender o direito inalienável de que em determinadas matérias o poder supremo é do indivíduo e sobre elas não podem haver normas, regras, poderes que nos permitam ou nos obriguem. Esta atitude se refere às drogas, todas elas, à eutanásia, ao aborto, a dirigir sem cinto de segurança, sem capacete…
Não à descriminalização da maconha! Não à descriminalização das drogas! Que elas, todas elas, simplesmente não sejam passíveis de entrar no circuito de leis. Que pura e simplesmete as leis sequer possam tocar no assunto! Liberar sim, legalizar não.
Parafraseando Thiago de Mello:
“Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
A partir deste instantea
liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio”
domingo, 26 de abril de 2009
POESIA - MARIO QUINTANA
“Por favor, não me analise
Não fique procurando cada ponto fraco meu.
Se ninguém resiste a uma análise profunda,
Quanto mais eu…
Ciumento, exigente, inseguro, carente
Todo cheio de marcas que a vida deixou
Vejo em cada grito de exigência
Um pedido de carência, um pedido de amor.
Amor é síntese
É uma integração de dados
Não há que tirar nem pôr
Não me corte em fatias
Ninguém consegue abraçar um pedaço
Me envolva todo em seus braços
E eu serei o perfeito amor.”
POESIAS - MARIO QUINTANA
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.
POESIAS - FERNANDO PESSOA
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não atem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.
POESIAS - PAULO LEMINSKI
"Leite, leitura
letras, literatura,
tudo o que passa,
tudo o que dura
tudo o que duramente passa
tudo o que passageiramente dura
tudo,tudo,tudo
não passa de caricatura
de você, minha amargura
de ver que viver não tem cura."
sexta-feira, 20 de março de 2009
INDISCIPLINA EM SALA DE AULA: COMO RESOLVER?
Honestidade e segurança são palavras-chave para o bom convívio na sala de aula!
E o sino bate para a temida volta à sala! Mais uma vez, se fosse possível ouvir os pensamentos, poderíamos escutar coisas do tipo: Ah, não...., Já bateu o sino?, Ai, eu quero embora..., Agora é aquela aula chata..., Não aguento mais tanto barulho, Se não tem outro jeito...., Agora tenho que ir para aquela turma bagunçada, e outros mais.
É verdade... é muito ruim chegar em uma sala desorganizada, onde não há respeito!
E após várias experiências, nós, professores, temos que reavaliar nossa didática e a forma com que temos conduzido nosso cotidiano profissional. Afinal, pode chegar o dia em que o despertador irá tocar e ficaremos deitados por exaustão de pensar em mais um dia de trabalho em uma sala que só nos desgasta fisicamente e emocionalmente.
Como vencer isso? Não há uma fórmula, mas é muito provável que se a indisciplina na sala pretende ficar até o final do ano, medidas precisam ser tomadas pela direção, pela coordenação, mas principalmente, pelo professor, pois ele é a autoridade em sala de aula.
O primeiro passo é esse: nós mesmos reconhecermos que somos autoridades dentro de sala (porém, não vamos confundir autoridade com autoritarismo). Logo, temos que nos impor como tal, a fim de estabelecermos regras próprias para que haja bom convívio. Dessa forma, se fizer uma promessa para a turma, cumpra, pois isso passa segurança e confiança aos alunos. Se errar alguma nota ou em uma atitude, assuma e peça desculpas em público, o que demonstra honestidade, humildade e sabedoria, qualidades admiráveis. Seja amigável e informal, mas dentro de um limite em que o aluno ainda saiba que você é primeiramente professor dele e não amigo. Converse com os alunos abertamente e pergunte se está claro o que está sendo explicado. Se observar que os alunos estão desatentos ou que não entenderam, chame a atenção deles e explique de outra forma e note se surgiu efeito. É importante que o educador esteja pensando na sua didática e procure diversificar as aulas com o intuito de melhorar o rendimento da turma e deixar as aulas mais prazerosas e menos cansativas para ambos.
E mais um ponto fundamental: a turma segue os exemplos que nós damos, então, devemos medir cada ação tomada, a qual não pode ser bruta demais (Saia da sala!), nem temperamental ao extremo (Tudo bem, mas não faça mais isso!).
É importante que os alunos reconheçam aos poucos a forma como o educador conduz sua aula, ou seja, qual a metodologia de ensino imposta. Caso a turma não o faça, é sinal de que está na hora do professor pensar numa outra forma de lidar com determinada turma e a partir desse fato criar novos métodos de ensino, adotar um caderno de anotações, aplicar outros tipos de avaliações (inclusive de si mesmo), adotar uma diferente forma de passar o conteúdo, e assim por diante.
Por Sabrina Vilarinho
Graduada em Letras
Equipe Brasil Escola
“Os professores não aprendem a dar aula”
Entrevista: Claudio de Moura Castro, ECONOMISTA
Respeitado como um dos principais pensadores da educação no Brasil, o economista Claudio de Moura Castro acredita que o ensino brasileiro padece de um ciclo vicioso: como a maior parte da sociedade brasileira é educada precariamente, se conforma com a baixa qualidade das escolas. E um dos fatores para a manutenção desse quadro, segundo o pesquisador e colunista da revista Veja, é o processo atual de formação dos professores. Confira a entrevista concedida na sexta-feira, por telefone, desde seu escritório em Belo Horizonte:
Zero Hora – Por que a educação brasileira não avança como desejado?
Claudio de Moura Castro – Porque começa mal. O Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) mostra que menos da metade dos alunos chega à 4ª série funcionalmente alfabetizada. O problema, então, começa já no primeiro ano do Ensino Fundamental. Não adianta consertar o que vem depois. A grande reforma universitária no país seria reformar a 1ª série.
ZH – O que não funciona?
Moura Castro – Uma pesquisa publicada pela revista Veja mostra 80% de satisfação de pais, alunos e professores com a escola no Brasil. E, politicamente, tudo o que você precisa fazer para melhorar a educação é maldade: o aluno tem de se dedicar mais, a prova tem de ser mais difícil, o professor tem de trabalhar mais, tem de corrigir mais, o diretor tem de ser sargentão. Tudo isso tem custo. Por que o secretário de educação ou o diretor de escola vai queimar o capital político dele, se o próprio público não vê a educação como um problema?
ZH – Mas não há uma parcela importante da população que vê?
Moura Castro – Só os educados sabem que a educação não é boa. Como são muito poucos, acabam não contando. Fica difícil fazer algo que envolve custo se pouca gente acha que precisa. Essas pessoas acham que está bom porque a situação física na escola hoje é melhor, tem computador. Só que a sala de aula continua uma porcaria.
ZH – Por quê?
Moura Castro – Os professores, com honrosas exceções, são mal recrutados. Sentem-se desprezados, mal pagos, maltratados. Os alunos que entram para fazer pedagogia são os mais fracos. Olha os vestibulares, a pedagogia está na rabeira. Os professores não aprendem direito o conteúdo e não aprendem a dar aula durante o curso.
ZH – Aprendem o quê?
Moura Castro – Grandes teorias, Vygotsky, Piaget, que foi um cara que nunca falou de educação. Falou da psicogênese do conhecimento. O que interessa é como deve ensinar verbo irregular, como deve formular uma prova, como fazer um plano de aula. Os mais antigos dizem que antes aprendiam a dar aula. Hoje tem uma barreira, tem uma gosma ideológica fortíssima, uma grande resistência à mudança e uma recusa em ensinar aos professores aquilo que eles devem ensinar. Hoje não pode haver acusação pior do que chamar um professor de conteudista, de ter currículo a ensinar. Aí tem outro problema grave do professor, a resistência a uso de materiais estruturados.
ZH – O que são?
Moura Castro – São obras que entram no detalhe de como conduzir os assuntos de aula, passo a passo. É que há uma convicção de que esse tipo de material não pode, o professor é que tem de inventar a aula. E a minha estimativa é de que entre 2% e 3% dos professores têm competência para inventar aula. E, mesmo se tiverem, não têm tempo para isso.
ZH – Que saída o senhor vê para isso?
Moura Castro – Sou moderadamente otimista. A coisa mais importante que aconteceu nos últimos anos foi o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), que existe escola por escola, município por município. E os diretores todos sabem o Ideb da sua escola. Eu fui na pior escola da pior periferia de Belo Horizonte, e a diretora lá sabia qual era o Ideb dela. Então, hoje você tem uma medida, uma espécie de GPS da educação.
ZH – Falta usar esses dados?
Moura Castro – Falta os pais aprenderem a apertar mais a escola: “Como é, esse Ideb de vocês não vai avançar?”. Os dados estão referenciados para permitir a comparação com outros países, então dizem quantos pontos tem de fazer para chegar a um nível de primeiro mundo.
ZH – Hoje há um pacto de mediocridade?
Moura Castro – É, é um pacto de mediocridade. Na verdade, nem é isso, porque acham que está bom.
Publicado em 01/02/2009
ZERO HORAPROVA BRASIL: AVALIAÇÃO DÁ UMA MÁ NOTÍCIA AO ENSINO GAÚCHO
Seis em cada 10 municípios gaúchos avaliados pela Prova Brasil, aplicada pelo Ministério da Educação, não atingiram metas de aprendizagem em língua portuguesa estabelecidas pelo movimento Todos pela Educação para a 4ª série do Ensino Fundamental. Também foram avaliados estudantes de 8ª série nas disciplinas de língua portuguesa e matemática.
Os dados foram calculados a partir do resultado da Prova Brasil de 2007, teste aplicado pelo Ministério da Educação a cada dois anos nas escolas da rede pública (municipal, estadual e federal) da zona urbana do país com mais de 20 alunos nas séries avaliadas.
O percentual de municípios do Estado que não atingiu a meta na 4ª série (58,5%) é quase o dobro daqueles que não chegaram à meta na 8ª série (36,2%). Esse desempenho surpreendeu os especialistas.
Seis em cada 10 municípios gaúchos avaliados pela Prova Brasil, aplicada pelo Ministério da Educação, não atingiram metas de aprendizagem em língua portuguesa estabelecidas pelo movimento Todos pela Educação para a 4ª série do Ensino Fundamental. Também foram avaliados estudantes de 8ª série nas disciplinas de língua portuguesa e matemática.
Os dados foram calculados a partir do resultado da Prova Brasil de 2007, teste aplicado pelo Ministério da Educação a cada dois anos nas escolas da rede pública (municipal, estadual e federal) da zona urbana do país com mais de 20 alunos nas séries avaliadas.
O percentual de municípios do Estado que não atingiu a meta na 4ª série (58,5%) é quase o dobro daqueles que não chegaram à meta na 8ª série (36,2%). Esse desempenho surpreendeu os especialistas.
O QUE É A PROVA BRASIL ?
| São testes que avaliam língua portuguesa (competência em leitura) e matemática. A primeira edição, em 2005, foi realizada em 5.387 municípios do país. Mais de 3 milhões de alunos, distribuídos em cerca de 40 mil escolas públicas urbanas, foram avaliados. Além dos testes, os alunos respondem a um questionário com informações sobre seu contexto social e capital cultural. A interpretação da Prova Brasil, com a análise dos resultados das avaliações aplicadas pelos professores, permite que equipes escolares revejam projetos pedagógicos e que os docentes possam definir mais claramente metas de aprendizagem e objetivos de ensino. Para gestores e governantes, a Prova Brasil oferece informações que possibilitam uma visão global do ensino, auxiliando gestores nas tomadas de decisões e no direcionamento de recursos técnicos e financeiros para promover a melhoria da qualidade da educação. |
| O QUE A PROVA BRASIL AVALIA? |
| Aplicada em alunos da 4ª e 8ª séries, contém itens que permitem medir a competência leitora em língua portuguesa e a competência em resolução de problemas em matemática. Juntando os níveis de aprendizagem atingidos pelos alunos de determinada unidade escolar, a Prova Brasil apresenta uma fotografia das escolas, das redes de ensino e do país. |
| COMO É ESTABELECIDA A META? |
|---|
| A partir do percentual de alunos que obtiveram conhecimentos mínimos na primeira aplicação da Prova Brasil, em 2005, a ONG Todos Pela Educação estabeleceu metas por municípios. A ideia é que todos tenham condições de alcançar a meta nacional, prevista para 2022, de que 70% dos alunos atinjam pontuação mínima para um aprendizado considerado adequado. Para cada município, estabeleceu-se uma meta. A projeção leva em consideração uma curva de crescimento, que começa suave e se torna mais ambiciosa no futuro. |
| POR QUE NÃO APARECEM TODOS OS MUNICÍPIOS NA LISTA? |
|---|
| Porque a participação é por adesão e nem todos municípios participaram da prova. A avaliação é aplicada em áreas urbanas e envolve escolas públicas (municipais, estaduais e federais). |
A escola pública é a Geni
A sociedade brasileira tem criticado a escola com todas as suas forças, desvalorizado o profissional e evitando enfrentar o problema de uma vez por todas
Atualmente vivemos em sociedades complexas, onde a distribuição urbana tradicional, com a praça rodeada pela prefeitura, igreja, clube, teatro e escola não descreve mais as intenções desta sociedade: governar, catequizar, reunir, divertir e ensinar. Hoje temos shoppings, land houses, locadoras de DVDs, fast food, academias de ginástica, supermercados, butiques de roupas, sapatos e pães, clínicas para os mais variados fins, enfim, é uma rede de atrativos e funções interminável. E a escola onde fica? À margem deste processo, assim como a prefeitura, a igreja e até a praça (o clube e o teatro foram redimensionados, mas se sustentam, pois estão vinculados com o produto da hora: a diversão).
A escola, a partir da segunda metade do século 20, vem sendo permanentemente criticada dentro da sociedade, o que reflete no valor que lhe é empregado e na sua efetiva função social. A década final daquele século e estes primeiros anos do 21 apresentam de forma gritante este desgaste crônico que vem corroendo o sistema de ensino brasileiro. Primeiro, a substituição da aquisição cultural escolar pela da mídia, descartável e questionável (inclusive quanto ao conceito de cultura!); depois, a sistemática desvalorização do profissional desta instituição, desestabilizando a própria credencial de profissional atribuída ao professor; por fim, os meios de comunicação, que corroboram com a depreciação do professor e da escola, veiculando por todos os seus meios, matérias, muitas vezes tendenciosas, em que a crise do ensino existente hoje é fruto basicamente do despreparo profissional e do descaso deste por seus alunos ou pelo próprio conhecimento. Ainda assim, o ensino é ingrediente farto na maioria dos discursos políticos, principalmente em épocas eleitorais. Por quê?
O ensino é a Geni da nossa sociedade complexa. Sua função é inevitável, seja para dar noções de convívio social, seja para ensinar os princípios básicos da matemática e da escrita, seja para formar futuros profissionais (sem comentários acerca da qualificação, que perpassa a construção pessoal e sua integração no coletivo), a escola, instituição que concentra os elementos cardeais do ensino: professores, alunos, salas de aula, móveis, materiais escolares, funcionários da educação..., é o lugar pelo qual todo cidadão deve e deveria passar alguns anos de sua vida. Seria na escola que a sociedade deveria construir e sustentar suas amarras, pois nem todos seremos médicos, políticos ou mesmo professores, mas todos fomos alunos.
Mas acontece o inverso. A escola tornou-se o único local onde a democracia é vociferada. Tudo lá e de lá pode ser dito. Políticos fazem promessas e depois repassam às direções e funções escolares a responsabilidade pela crise e pela busca de solução; pais em geral contribuem com críticas (quando não com ofensas), mas dificilmente com soluções; alunos desrespeitam professores, colegas e a estrutura física empregada para o ensino, não entendem e não veem razão para estarem ali; os meios de comunicação que buscam vender seus jornais, revistas ou captarem telespectadores para seus telejornais, divulgam matérias muitas vezes suspeitas, com interpretações distorcidas, em que questionam atuação e qualidade profissional de professores, desmerecem reivindicações por melhores salários ou condições de trabalho, e glorificam a função altruísta do professor como vocação, abnegação e complacência. Não tem escapatória, todos jogam pedra na Geni!
Nesta sociedade em crise, em que falta casa, comida, saúde, emprego, afeto, não falta “lugar na escola”. Toda criança tem direito a ela (assim como deveria ter direito a tudo mais aqui citado) e agora parece que a escola tem que suprir os demais. É na escola que a criança deve receber o afeto que lhe falta fora dela, a comida que não lhe é oferecida em outro lugar, o cuidado com a saúde que não é observado por mais ninguém, e ainda alfabetizar e desenvolver conhecimentos para dar condições a este jovem de ingressar na sociedade de trabalho qualificado. A escola pública foi transformada num poço de bondade.
Então, quando os governos desejam verificar a quanto anda a qualidade do ensino, aplicam uma prova, na qual crianças oriundas de não lares, famintas de comida e motivos, devem responder a questões as quais não perguntam sobre sua vida nem lhe indicam razões para ser quem são. As respostas dadas por estes jovens serão entendidas como as respostas da escola e de seus professores, e que acabam por não atingir aquilo que foi externamente entendido como obrigação da instituição pública referida: obtenção de uma classificação quantitativa positiva. A escola pública encobre as demais necessidades, sem conseguir realizar as suas próprias. O sacrifício é em vão e não há reconhecimento. Da criança de um mundo de fome e miséria, sem razões para responder às questões da prova, transferem o fracasso para a escola, que não a transformou num aluno competente e capaz. Estaria aqui, então, uma razão, entendida pelos governos e estendida à opinião pública, de manter baixos os salários e as verbas do ensino?
Porém, há um paradoxo misterioso nisto tudo: qual a razão da educação ser objeto concorrido nos discursos políticos em campanhas e objeto de desprezo fora delas? Um povo bem-educado (no sentido formal) não iria retribuir àquele que lhe permitiu acesso a esta boa educação? Cidadãos bem-preparados não formariam profissionais mais qualificados e, portanto, otimizariam suas funções e os recursos utilizados (o que também abarcaria o meio ambiente)? Será que não há respostas para nenhuma destas questões?
Não há dúvida, a educação está em crise, e com ela a escola e seus profissionais. A onda de massificação massificada de tudo, que nessas últimas décadas sacrifica a qualidade, não sendo mais este um adjetivo com verdadeiro significado, cobre o sistema de ensino até o pescoço, mal o mantendo vivo. A escola deve ser resgatada do meio dessa lama toda que a asfixia, não para retomar o que foi há décadas, mas para estar em dia com o contexto no qual vivemos. Não é com críticas e xingamentos que isso será feito, nem da noite para o dia, todavia o caminho tem que ser traçado e o primeiro passo dado. Devemos nos perguntar qual a função da escola, se é a de preencher os vazios deixados pelo governo e por demais instituições sociais ou desempenhar um papel exclusivo, de ensinar, dar disciplina para que as ideias não se percam na bagunça dos pensamentos, desenvolver o desejo em aprender, permitir que o tempo de aprendizagem seja usado para isso mesmo, não para desordem, desconstrução ou esvaziamento. A escola deve ser escola e não outra coisa inominável na qual está se tornando.
Parece que há um ciclo de formação de opinião que precisa ser rompido. Enquanto nenhuma voz se erguer mais alto que as demais e argumentar que a escola não é a Geni, a educação ainda será a escarradeira social, o saco de pancadas político, e a prostituta do jornalismo.
"Acho que o homem deve viver em sua pátria e creio que o desarraigamento dos seres humanos é uma frustração que de uma maneira ou de outra entorpece a claridade da alma. Eu não posso viver senão em minha própria terra. Não posso viver sem pôr os pés, as mãos e o ouvido nela, sem sentir a circulação de suas água e de suas sombras, sem sentir como minhas raízes buscam em seu barro pegajoso as substâncias maternas."
Que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos conquistadores torvos... Estes andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas Américas encrespadas, buscando batatas, feijõezinhos, tabaco negro, ouro, milho, ovos fritos, com aquele apetite voraz que nunca mais se viu no mundo... Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais as que eles traziam em suas grandes bolsas... Por onde passavam a terra ficava arrasada... Mas caíam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das ferraduras, como pedrinhas, as palavras luminosas que permaneceram aqui resplandecentes... o idioma. Saímos perdendo... Saímos ganhando... Levaram o ouro e nos deixaram o ouro... Levaram tudo e nos deixaram tudo... Deixaram-nos as palavras. (Confesso que vivi, p.58)
terça-feira, 9 de outubro de 2007
UMA VIAGEM PELA ARTE CONTEMPORÂNEA

quarta-feira, 3 de outubro de 2007
ANIVERSÁRIO
2008 é o centenário da morte de Machado de Assis, cujas obras podem ser conferidas integralmente on-line. Lançamentos, seminários e espetáculos teatrais, entre outras atividades culturais e acadêmicas, estão sendo preparados. E, no último dia 19 de setembro, foi também decretado que 2008 será oAno Nacional Machado de Assis, fato que incrementará ainda mais a agenda de eventos que tenham como tema o "Bruxo do Cosme Velho", que é como Carlos Drummond de Andrade chamava o escritor. As ações do Ano Nacional Machado de Assis começam já em 2007, mais precisamente em 23 de outubro, com uma exposição sobre as obras do escritor na 27ª Feira do Livro de Santiago, no Chile.
UM OUTRO MACHADO
quarta-feira, 26 de setembro de 2007
VAI PIORAR
"Tolerância zero com tudo o que nos desmoraliza e humilha, perseguição implacável ao cinismo, mudança total nas futuras eleições, faxina no Congresso"Escritores devem escrever, palestrantes devem falar. Qualquer pessoa tem a obrigação de pensar e o direito de se expressar. Claro que isso não acontece num país de analfabetos, onde não se tem interesse em que o povo pense: um povo informado escolheria outros líderes, não ficaria calado quando pisoteiam sua honra, expulsaria de seus cargos os pseudolíderes e tentaria recompor as instituições aviltadas. Mas nós não fazemos nada disso: parecemos analfabetos e afásicos, uma manada de bobos assistindo às loucuras que se cometem contra nós, contra cada um de nós.
E eu, que tenho as duas atividades, escrever e eventualmente falar, que desde criança fui ensinada que cabeça não foi feita só para separar orelhas, mas para pensar, questionar – e também para ser feliz –, neste momento, não sei o que pensar. Muito menos o que responder quando me perguntam interminavelmente o que estou achando, como estou me sentindo. Estou virando pessimista. Não em minha vida pessoal, mas em relação a este país. Ou melhor: a seus governantes, autoridades, homens públicos, políticos. Mal consigo acreditar no que se está passando. A cada dia um espanto, a cada dia uma decepção, a cada dia um desânimo e uma indignação.
Este já foi o país dos trouxas, que pagam impostos altíssimos e quase nada recebem em troca; o país dos bobos, que não distinguem um homem honrado dum patife, uma ação pelo bem geral de uma manobra para encher o bolso ou galgar mais um degrauzinho no poder a qualquer custo; o país dos mistérios, onde quem é responsável absoluto não sabe de nada, ou finge enxergar outra realidade, não a nossa. Hoje, estamos ameaçados de ser o país dos sem-vergonha. A falta de pudor e o cinismo imperam e não há, exceto talvez o Supremo Tribunal, lugar totalmente confiável.
Entre os políticos, com cargos ou não, impera um corporativismo repulsivo – ou estaremos todos de rabinho preso? Nós, povo que se deixa enganar tão facilmente, que pouco se informa e questiona, vamos nos tornando da mesma laia? Seremos também, concreta ou moralmente, vendidos? Quando eu era menina de colégio, às vezes os rapazes se insultavam gritando "vendido!", não me lembro bem por quê. Deviam ser questões esportivas. Um ponto não marcado, um gol roubado. Era grave insulto. Hoje, parece que ninguém mais liga para insultos, leves ou pesados – nada pega, tudo é água em pena de pato, escorre e acabou-se. Um povo teflon. Vemos líderes vendendo-se em troca de comodidade, cargo, poder, dinheiro, impunidade,preservação de algum sórdido segredo, ou simplesmente a covardia protegida.
Quem nos deve representar sumiu no ralo. Quem nos deve orientar se transformou em mamulengo. Quem nos deve servir de modelo chafurda na lama. E nós, povo brasileiro, nos arrastamos na tristeza. Reagimos? Como reagimos? Pintamos a cara e saímos às ruas aos milhares, aos milhões, jogamos ovos podres, paramos o país, pacificamente que seja, tentamos mudar o giro da máquina apodrecida? Aqui e ali um tímido protesto, nada mais.
De algum lugar surgiram os senadores que votam às escondidas porque não têm honra suficiente para enfrentar quem os elegeu; os deputados pouco confiáveis, alguns duvidosos ministros, de onde surgiram? De nós. Nós os colocamos lá, nós votamos, nós permitimos que lá estejam e continuem – nós, através das mãos dos ditos representantes, instituímos a vergonha nacional que em muitas décadas será lembrada como um tempo de opróbrio.
E não argumentem que a economia está ótima: ainda que esteja, digo que me interessa muito menos a economia do que a honra e a confiança, poder ser brasileiro de cabeça erguida. Existe o Bolsa Família, a miséria está um pouco menos miserável? Pode ser. Mas os hospitais continuam pobres e podres, as escolas e universidades carentes, as estradas intransitáveis, a autoridade confusa e as instituições esfaceladas,os horizontes reduzidos. O Senado terminou de ruir? Querem até acabar com ele? Pode parecer neste momento que ele não faz muita falta, mas sua ausência seria um passo para o Executivo ditatorial, a falência total da ordem e a perda de um precário equilíbrio.
Com pressentimentos nada bons, faço – embora sem grande esperança – uma conclamação: tolerância zero com tudo o que nos desmoraliza e humilha, perseguição implacável ao cinismo, mudança total nas futuras eleições, faxina no Congresso, Senado e câmaras, renovação positiva no país. Conscientização urgente, pois,acreditem, do jeito que vai a coisa tende a piorar.
terça-feira, 18 de setembro de 2007
Ainda sobre racismo

Conversas sobre discriminação
Meu avô é negro, eu gosto dele. Ele não é parente de sangue do meu pai, mas ele é tri. A minha vó é quase negra, eu puxei por ela.
Lá em Morro Alto, o vizinho da minha vó é negro, ele foi trabalhar e o patrão dele chamou ele de negro e de tudo quanto foi nome. Ele ficou brabo e botou o patrão dele na justiça e ganhou R$ 9.000,00. Ele é amigo de todo mundo.
Lá em Morro Alto já foi um Quilombo, a maioria das pessoas que moram lá, são negros, eles são respeitados.
No ano passado eu tinha uma colega que era negra e a gente estava fazendo um teatro. O papel dela era da abelha que me mordia, e eu disse pra ela que ela tinha que soltar o cabelo "assolan". Ela ficou muito braba, masdepois eu pedi desculpas e ficou tudo bem.
Produção textual do aluno Rodrigo Leite da Silva. Turma 71 Escola Albatroz- Osório -RS
quinta-feira, 6 de setembro de 2007
HQ E O TRÂNSITO

"O material possui uma linguagem adequada e atraente para as crianças e jovens, dessa forma eles assimilam os ensinamentos de uma forma prazerosa", explica a idealizadora e coordenadora do Projeto Escola, Maria José Finardi.”[1]
O interessante deste projeto é que a HQ é apresentada aos educadores das 58 escolas durante uma reunião pedagógica, onde eles fazem sua leitura e desenvolvem atividades em grupo. Os professores interagem como o material, discutem formas de utiliza-lo em sala de aula e estimulam sua própria criatividade. As atividades são socializadas e acaba fortalecendo a proposta do projeto, que já atua há seis anos.Nesse período, 2.067 professores foram capacitados, contribuindo para a educação de 46.487 alunos dos ensinos fundamental, médio e EJA (Educação Para Jovens e Adultos. A metodologia adotada no Projeto Escola Intervias possibilitará aos professores incorporá-la ao projeto pedagógico de suas escolas de uma forma abrangente, apontando possibilidades de transversalizar o tema trânsito nas diversas áreas curriculares de Ensino.O projeto tem um site onde quem tiver interesse pode obter mais informações e, quem sabe, se inspirar nesta iniciativa. O link é: http://www.projetoescolaintervias.com.br/O primeiro número da HQ está disponível on line através do link http://www.projetoescolaintervias.com.br/zequest1/viva.php?pagina=1

sexta-feira, 31 de agosto de 2007
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HISTÓRIAS EM QUADRINHOS GENIAIS



HQ Coisa - Julho de 2007- Tio Patinhas 60 anos
Para criá-lo, o desenhista Carl Barks inspirou-se em Ebenezer Scrooge, um milionário avarento que acaba descobrindo ter um bom coração na peça “Um Conto de Natal”, de Charles Dickens. Ironicamente, nos anos 70, uma dupla de intelectualóides radicais de esquerda diriam que ele era o símbolo máximo do capitalismo, que passava mensagens subliminares do Imperialismo às mentes pueris das crianças. Alheio a teorias da conspiração e ideologias políticas, Scrooge Mac Duck, ou melhor, Tio Patinhas completa seis décadas de existência neste ano. E, como é comum nestas ocasiões, quem ganha presente são os fãs do personagem: a editora Abril acaba de lançar, em três volumes, o excelente A Saga do Tio Patinhas, uma longa HQ que conta a história do pato desde sua infância pobre, na Escócia.
Foi em um longínquo dezembro de 1947 que o estadunidense Barks criou aquele que viria a ser um dos maiores sucessos da família Disney. Aliás, diga-se de passagem, Barks – também chamado de “Homem-Pato” – é o grande responsável por boa parte do mundo de Mickey e companhia: foi ele que criou Patópolis (Duckburg, no original) e outros personagens fantásticos como os Irmãos Metralha, Maga Patológika. Professor Pardal, Gastão...
Patinhas Mac Patinhas apareceu pela primeira vez como um tio rico e avarento que resolve testar a coragem do sobrinho Donald mandando-o passar o Natal em uma cabana de sua propriedade, em um lugar inóspito no meio da neve e à mercê de ursos. Pouco depois, Barks criaria a história “O Segredo do Castelo”, primeira a ser publicada no Brasil com o personagem, em 1950 (no número um da revista Pato Donald). Nesta segunda história, o Homem dos Patos começaria a lapidar melhor a personalidade do magnata, bem como a dar pistas de sua família e do que passou para conquistar seus fantastilhões de patacas.
Com o passar dos anos (e de centenas de HQs), Barks criou um personagem definitivo e irresistível: um sovina que adora nadar no dinheiro de sua Caixa-Forte e ainda tem a primeira moeda que ganhou, mas que ao mesmo tempo se envolve em aventuras fantásticas no meio da selva e em civilizações perdidas atrás de tesouros lendários (pagando no máximo 30 centavos por hora para os sobrinhos ajudá-lo). Um homem, que dizer, pato, que sabe o valor do dinheiro e odeia gastar uma mísera moedinha, mas que também é capaz de gestos de grandeza incomensuráveis ou de gastar milhões apenas para provar que sua fortuna é a maior do mundo.A dubiedade do personagem que, de quando em quando, mostrava ter um coração generoso, mas ao mesmo tempo era capaz de explorar financeiramente os próprios sobrinhos, nunca incomodou Barks.
“Eu acho que todo mundo deve ser capaz de subir (socialmente) tão alto quanto puder ou quiser, desde que não mate ninguém nem oprima outras pessoas no caminho. Um pouqinho de exploração é algo natural”, dizia o cartunista que morreu aos 99 anos e criou mais de 500 histórias para a Disney – sem ter enriquecido com isso.
A Saga do Tio Patinhas, porém, ajuda a compreender melhor as manias e a personalidade de Patinhas. O próprio Barks já havia citado inúmeras histórias do passado do personagem em suas HQs, bem como feito o velho Patinhas revisitar – e descobrir novos tesouros em – cenários de aventuras que teria vivido na infância e adolescência. A saga, porém, mostra estas aventuras, de maneira inteligente e, por vezes, até emocionante (impossível não ficar comovido com a cena já neste primeiro volume de quando o pato recebe a notícia da morte da mãe).
O mais interessante da aventura, porém, é que o cartunista Don Rosa (que a idealizou e desenhou) colocou na história todas as reminiscências do velho pato criadas por Barks e as costurou de maneira magistral, em ordem cronológica, em uma grande odisséia inédita. Assim, os leitores descobrem, por exemplo, como era possível Patinhas ter nascido em família pobre e ter herdado o castelo da primeira HQ publicada no Brasil.
Há também diversos momentos “históricos” - como quando o milionário ganhou a moedinha número um e a primeira aparição dos Metralhas e do rival Mac Money - e curiosidades: quer conhecer a mãe do Pato Donald, Hortência? Ela está lá, na mais tenra infância e na atribulada adolescência, exibindo o pavio-curto que tornaria-se característico do filho. No segundo volume aparece também Dumbella (a irmã de Donald e mãe de Huguinho, Zezinho e Luizinho), além da então jovem Donalda, com o marido Tomás e os três filhos - entre os quais o pai do Donald e a mãe do Gastão.
Mais ainda: descobre-se que foi o (então) futuro presidente Teddy Roosevelt que, sem querer, incutiu em Patinhas a mania de guardar moedas. TR, representado por um cachorro antropomórfico na HQ, ensina o pato que o dinheiro vale não pelo que ele compra, mas pela aventura e o trabalho que se tem para ganhá-lo.
Ao lado da série Melhor da Disney: As Obras Completas de Carl Barks (também lançada pela Abril e atualmente no 28º volume), A Saga do Tio Patinhas (R$ 14,95, 146 páginas) é, sem dúvida, o que de melhor já foi feito sobre o personagem. Imperdível não só para os fãs e os nostálgicos, mas para qualquer um que queira conhecer melhor o pato adorado por “fantastilhões” de fãs ou, simplesmente, divertir-se com uma HQ magistral.
Em tempo: o tal livro lançado nos anos 70, pelo chileno Ariel Dorfman e o belga Armand Mattelard, chamava-se Para ler o pato Donald era propositadamente intolerante e analisava os personagens a partir de uma pequena amostra de HQs, boa parte delas com balões de diálogo distorcidos para encaixarem-se nas opiniões dos autores (os originais eram apagados e se escrevia, muitas vezes a mão, frases nunca ditas por Patinhas e companhia).
Na internet é possível encontrar muitas referências e análises do livro infeliz (lançado no Brasil em 1980 pela Editora Terra e Paz). Para os interessados em uma análise séria e coerente dos quadrinhos Disney, porém, recomenda-se Para reler os quadrinhos Disney, do professor brasileiro Roberto Elísio dos Santos (Editora Paulinas, 2002).
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quinta-feira, 30 de agosto de 2007
HIPERTEXTO - UMA NOVA LINGUAGEM
Quando estamos em nossa casa numa noite fria de inverno, existe melhor companhia do que a de um livro?
Mas para que essa atitude lúdica aconteça, o homem percorreu milhares de quilômetros desde a invenção da escrita. A ela devemos todo o nosso reconhecimento e progresso tecnológico e as diferentes trocas entre as mais variadas culturas existentes em nosso planeta.
Mas a escrita não veio sozinha, acompanhou-a a leitura.
Escrever é registrar os conhecimentos, é a própria invenção do mundo.
Ler é atualizar o que foi escrito, procurar no fundo de nossa memória, muitas vezes atávica, o conhecimento.
Com a criação do universo virtual, o hipertexto tornou-se uma forma de leitura das mais instigantes.
A tecnologia criou condições para que a partir de um texto básico, sejam acessados lincks que irão contribuir de forma decisiva na transformação do texto inicial, que se desdobrará em outros tantos, criando com isso, uma poderosa teia de conhecimentos e informações.
Como sabemos que “conhecimento é poder”, esta nova ferramenta usada na escola, amplia os horizontes dos alunos, que acabam por ter um número maior de informações, devido à rapidez com que são feitas as consultas, não sendo mais necessário faze-las ao pé da pagina, esta nova informação acontece em tempo real. É maravilhoso poder ouvir a música, visualizar os mapas e fotos do material que estivermos trabalhando, mas o mais instigante, com referência ao hipertexto, é podermos interagir nestes novos textos, deixando com isto a nossa marca.
terça-feira, 28 de agosto de 2007
A Implosão da Mentira
E hoje mentem novamente
Mentem de corpo e alma,
Completamente.
E mentem de maneira tão pungente
Que acham que mentem sinceramente.
Mentem, sobretudo, impunemente.
(...) E de tanto mentir tão bravamente,
Constroem um país de mentira - diariamente.
Afonso Romano de Sant`Anna
terça-feira, 21 de agosto de 2007
quarta-feira, 15 de agosto de 2007
ENTRE A VIDA E A MORTE
terça-feira, 14 de agosto de 2007
REGÊNCIAS
Há duas semanas, comentei aqui um parágrafo de um texto de Diogo Mainardi publicado numa Veja de final de ano. O mesmo número (1988) publicava um artigo de Reinaldo Azevedo que me dá o mote para meu texto de despedida deste espaço (depois eu explico). Opondo seu “iluminismo” ao primitivismo e autoritarismo do PT (juro que é mais ou menos isso), Azevedo diz, lá pelas tantas, que “há mais civilização contida na regência de um verbo do que em qualquer porcaria produzida por utopistas para nos ‘libertar’”.
Entenda-se que Azevedo quer dizer que qualquer coisa produzida por qualquer utopista deve ser considerada uma porcaria. Caso contrário, seu texto não faria sentido, por ser óbvio que qualquer coisa — seja uma regência, uma concordância ou uma colher de pau — deve ser melhor do que uma porcaria. O que não é muito claro é o que Azevedo quer dizer elevando as regências verbais a provas de civilização. Uma hipótese favorável a ele seria considerar que as regências verbais ordenadas pelas gramáticas são apenas indícios de civilização, isto é, não mais que isso. Explico, fazendo ao texto de Azevedo o favor de relacioná-lo aos escritos de Norbert Elias, especialmente a O processo civilizador (Rio, Jorge Zahar Editor): segundo Elias, civilização é algo diferente de cultura, e, no sentido que lhe dá no livro, tem muito a ver com refinamento e boas maneiras.
Ora, até pelos exemplos que seu livro contém, fica muito claro que as regências corretas (se Azevedo estiver falando disso, como acho que está) têm tudo a ver com civilização e nada com cultura. Ou seja, falar corretamente (as regências corretas, por metonímia, significam isso) é apenas civilização. Em outras palavras, essas regras são da ordem da etiqueta. Dizer “acho que...” em vez de “acho de que...” ou “prefiro utopia a conformismo” em vez de “Ainda prefiro Mainardi do que Azevedo” não tem nada de errado em termos de sentido, de pensamento, de clareza, de comunicação etc. Só problema de etiqueta. É como enfiar o dedo no nariz.
O processo civilizador deixa isso muito claro. Regras do tipo “Não te coces com a mão com que pegas também o prato comum de servir” (p. 122) ou “Não se deve beber do prato. Com uma colher é o correto” (p. 96) têm o mesmo estatuto que “na sociedade da corte ninguém diz ‘como bem sabe’, ‘um bocado de vezes’ ou ‘acamado’ (comme bien sçavez, souvents fois, maladi)” (p. 118). Ora, as regências podem ser avaliadas pelos mesmos critérios usados para avaliar qualquer outra expressão em termos de certo e de errado — bem entendido, para a vida “social”. É verdade que só algumas têm esse peso, essa capacidade de separar os educados dos grosseirões. Nunca houve preocupação com a regência incontroversa e uniforme de dezenas de milhares de verbos. Só com a de cerca de três dezenas, exatamente as que distinguem os finos dos broncos. Ou alguém aí já estudou a regência de comer e de beber, ou ouviu alguém errar?
Como disse, estou supondo que Azevedo tem direito a essa interpretação alta. No caso, que ele sabe que usar uma regência em vez de outra é uma questão de finesse (e não de capacidade intelectual, portanto). Digo isso porque, se, diferentemente, o que ele quer dizer com há mais civilização contida na regência de um verbo do que em qualquer porcaria etc. é que devemos defender as regências gramaticais contra as populares (muitas delas certamente capturáveis em falas de petistas, embora não só nas deles), isto é, que devemos manter a boa língua intacta, então ele é apenas pouco letrado — talvez um pouco civilizado, mas pouco culto, nada sábio, desinformado.
Embora empine o queixo para falar de quase tudo (no mesmo número da revista ele escreve uma longa reportagem sobre o Evangelho de Judas e eu já o ouvi falar sobre tudo, como se em tudo fosse especialista, em programas de TV), se estiver falando das regências isso que é comum aos plantonistas, então está apenas mostrando que, quando se trata de língua, no máximo, consulta gramáticas, e lhes confere a capacidade de informar tudo sobre uma língua. Ora, quem sabe o mínimo sobre elas sabe que são exatamente, e apenas, uma espécie de manual de boas maneiras lingüísticas. Isso não é pouco, mas isso é isso!
Fiz um esforço, acima, para atribuir a Azevedo uma leitura alta de certas falas sobre regências. Mas aposto que me equivoquei.
PENSAR LÍNGUA PORTUGUESA
Aluno Gregory Conceição 8ª série Escola Albatroz- Osório - RS- Brasil




